Política Local
Audiência pública sobre zoneamento em Goiânia reúne mais de 400 moradores
Debate no Setor Bueno focou em altura de edifícios, uso misto e vagas de garagem. Construtoras defendem adensamento; moradores pedem limites mais rígidos.
Mais de 400 moradores lotaram o auditório da Associação Comercial de Goiânia na noite de quarta-feira para participar da audiência pública sobre a revisão do Plano Diretor e do zoneamento na região do Setor Bueno. O encontro, promovido pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano, marcou a terceira etapa de consultas públicas antes da votação do projeto na Câmara Municipal, prevista para agosto.
O ponto mais controverso foi a proposta de aumentar a altura máxima permitida de 12 para 18 andares em quadras específicas próximas à Avenida T-10, uma das vias de maior valorização imobiliária da capital goiana. A justificativa da prefeitura é estimular o uso misto — residências, comércio e serviços no mesmo bloco — e aproximar moradores do local de trabalho, reduzindo a dependência de carro particular.
Voz dos moradores
A Associação de Moradores do Setor Bueno apresentou um manifesto assinado por 1.200 residentes pedindo a manutenção do limite de 12 andares e a exigência de vagas de estacionamento vinculadas às novas unidades. "O bairro já enfrenta congestionamento nas horas de pico e falta de vagas nas ruas residenciais. Adensar sem investir em transporte público é receita para colapso", afirmou o presidente da associação, Antônio Ferreira Lopes.
Moradores que apoiam a revisão argumentam que a verticalização pode baixar o preço do metro quadrado para famílias de classe média e gerar receita de IPTU para a prefeitura investir em praças e ciclovias. "Nem todo mundo quer ou pode morar em casa térrea. Precisamos de opções de apartamentos acessíveis perto do trabalho", disse a professora universitária Carla Mendonça, 41 anos, que aluga um apartamento no Bueno e participou ativamente do debate.
Posição das construtoras
Representantes do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de Goiás (Sinduscon-GO) defenderam o adensamento vertical com contrapartidas: áreas de convivência no térreo, fachadas ativas com comércio e integração com o sistema de transporte público. "A revisão do zoneamento é uma oportunidade de modernizar um bairro que cresceu de forma desordenada nas décadas de 1980 e 1990", declarou o engenheiro Ricardo Naves, porta-voz do sindicato.
A prefeitura apresentou estudos de impacto de vizinhança (EIV) preliminares indicando que o aumento de população nas quadras afetadas seria compensado por novas linhas de ônibus e pela expansão da ciclovia que liga o Bueno ao Setor Marista. Críticos questionaram se os estudos consideraram adequadamente a capacidade do sistema de esgoto e abastecimento de água da região.
Uso do solo e comércio
Outro tema debatido foi a flexibilização do uso do solo para permitir escritórios e clínicas nos andares intermediários de edifícios residenciais. Pequenos comerciantes do bairro apoiaram a medida, esperando aumento de fluxo de clientes; moradores de ruas residenciais adjacentes temem barulho e circulação de veículos fora do horário comercial.
A secretária de Planejamento Urbano, Arq. Fernanda Couto, comprometeu-se a publicar em 20 dias a versão consolidada das propostas com todas as emendas sugeridas nas três audiências realizadas até agora. O documento ficará disponível por 30 dias para nova rodada de contribuições pelo portal da prefeitura.
Próximas etapas legislativas
Após a consolidação do texto, o projeto seguirá para análise das comissões de Urbanismo e Meio Ambiente da Câmara Municipal. Vereadores de oposição já anunciaram pedido de audiência adicional no Setor Oeste, outra área afetada pela revisão. A bancada governista defende votação em plenário antes das eleições municipais de outubro.
Para moradores que não puderam comparecer, a prefeitura disponibilizou formulário online e aceita contribuições por e-mail até 5 de julho. O Capital Click publicará a versão final do projeto quando ela for divulgada e acompanhará a tramitação na Câmara.
A participação expressiva na audiência demonstra o quanto decisões de zoneamento mobilizam a cidade. Em Goiânia, como em outras capitais do Centro-Oeste em crescimento acelerado, o desafio é conciliar densidade urbana, qualidade de vida e infraestrutura — um equilíbrio que moradores, empresários e gestores continuarão negociando nos próximos meses.